O Brasil Não Está Pronto Para o Hexa. Ainda

Elenco recheado.

Um veio do interior de São Paulo. Outro é paulista, mas recém voltou de anos morando em Brasília. Uma veio depois do trabalho e ainda outro achou que não ia conseguir folga, conseguiu. Teve também o de camisa do Corinthians (deu sorte no segundo jogo) e o de terno e gravata. Uma de camiseta preta, outra de camiseta azul e maquiagem colorida, outro de camisa social. Alguns desmarcaram em cima da hora, outros apareceram no último instante. Amigos de amigos também presentes. Pandeiro, óculos e apito.

Chegamos cedo, preleção já no bar. Concentração desde o jogo da Alemanha, alimentação cuidadosamente calculada para melhor sustentar a carga etílico-emocional da partida que estava por vir.

Tivemos que nos dividir para melhor ocupar o espaço – a marcação da mesa ao lado estava era cerrada. Sem problemas, armamos um nó tático de dar inveja no profê Osório. Uma mesa na parte de fora, frontal à televisão, central com visão de jogo privilegiada, cinco lugares. Completamos com outra na parte de dentro, na ponta à esquerda, diagonal fatal, sem obstáculos para a linha do gol, quatro lugares. Ambas com espaço para a geral ficar em pé.

Elenco em sintonia total, entrosado, revezamento e trocas de posição: quem come senta, quem bebe levanta.

Os dois gols sul-coreanos esquentaram o clima. Alemanha fora, confiança, “nível de concentração altíssimo”, como gosta de dizer Tite.

Mas a partida começou a sair do controle. De repente, nos vimos em inferioridade numérica. Uma ofensiva veio da direita e tomou conta do local. Mantivemos nossas posições, trincheiras apertadas, porém sólidas, irredutíveis, linhas compactas.

Rola a bola. O “pla-ne-ja-men-to” (outro dos termos titeneanos) nos garantiu posse de visão, mesmo em condições desfavoráveis. Os problemas começaram a aumentar.

Bola no meio de campo, eis que surge um grande sobe som vindo de cantos longínquos do bar. Cinco segundos depois vemos na nossa TV a boa jogada brasileira. O futebol é mesmo a caixinha de surpresas: fomos pegos de supetão com o delay da nossa imagem em relação ao outro aparelho televisivo do local.

Garçom, pelo amor de Jesus, não dá pra deixar no mesmo canal? Tem gente que vai ter um infarto aqui!

Mas os dois aparelhos já estavam na mesma frequência, era problema na antena, ou no receptor, ou no decodificador, enfim, nada com o que a mesa de técnicos da Vivo ali presentes pudesse nos ajudar.

Agonia total. O jogo era mais ouvido do que assistido. E o preço era caro: além de saber o resultado da jogada antes de ela se desenhar em nossas retinas, entravam por nossos tímpanos ondas sonoras indesejadas, como comentários homofóbicos do velho reaça ou gritos de gol antes da hora.

Comemoramos desde antes de Paulinho partir em direção à bola. Um a zero, êxtase, pulos, abraços e a chance de, no meio da confusão, aumenta a distância para os adversários da mesa ao lado.

No intervalo, o desespero: acabou o litrão. A barbárie nunca esteve tão próxima. Decisão em fração de segundos, pensamento rápido, drible de ginga brasileira e reorganização tática: alguns ficaram e tomaram cerveja seiscentos, outros também se mantiveram ali, mas mudaram o estilo de jogo para caipirinha em dose dupla, promoção do dia. E ainda um terceiro grupo, os desbravadores: pagamos a conta e fomos arriscar a sorte no boteco no final do quarteirão.

Perdemos cinco minutos da segunda etapa, a televisão era mais distante e menor, nossa posição era no meio da rua, mas havia litrão e um camarada de camisa vermelha personalizada com os dizeres “aqui tem luta” no lugar da sigla da CBF.

Valeu a pena. Dois a zero no placar, vitória e classificação para enfrentar o México.

O Brasil está pronto para o hexa? Não, ainda não.

Mas para a próxima partida vamos aprender com nossos erros.

Retrocessos nos custam caro, não podemos permitir ofensivas como a do agrotóxico. Já pegamos o contato do camarada e iniciamos a confecção de camisetas como a dele, ficaremo devidamente uniformizados. O esquema tático funcionou, é verdade, mas a busca por um novo campo de jogo já começou e treinos in loco serão necessários. Reforços no elenco também são bem vindos, juntos somos mais fortes.

Mais importante: nas oitavas, o litrão não pode acabar.

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O BRASIL IRÔNICO

Camisas da CBF reclamam de um juiz.

O primeiro lance foi duvidoso, escanteio na área, empurra empurra e eis que de um empurra decorre justamente o gol, do qual também se omitiu o advogado máximo de defesa. Instâncias superiores não atuaram, permanecendo em vigência a sentença primeira.

Também teve caso de pena máxima, novamente com um tribunal de vídeo omisso, valendo a decisão de campo: inocente até que simule o contrário.

Confederação Brasileira de Futebol se vê indignada. Como pode, logo eu, confederação de bem, prejudicada por juízes arbitrários, sem dúvida nenhuma tendenciosos e com absoluta certeza agindo em represália à traição, digo, ingênua confusão que fez nosso mais-ou-menos presidente entre as palavras Estados-Unidos-Canadá-México e Marrocos, tão parecidas em seu eme maiúsculo.

Ora, não vão nos calar! Todos às ruas com nossas puras vestes verde e amarela! Minha estimada Fifa, você há que entender, que não é possível tamanha barbaridade. Ó entidade máxima do ‘fitebol’, ouça nossas reclamações, quem é este homem por trás do vídeo?

Ofício negado.

Tudo bem, demos nossa posição. Um dia é da caça, outro do caçador. Nosso novo problema é dentro de campo: Neymar.

Agora, bem é verdade que – em que pese a saudade de ver canarinhos e não calopsitas em campo pelo Brasil – o cabelo do camisa 10 interfere um total de (somados embargos, liminares e julgamentos do TRF) 0% (zero por cento) no que ele faz com a bola.

Bola é bola, cabelo é cabelo, Copa é Copa e machistas, racistas e fascistas, não passarão.

Ok, justa talvez seja a posição de quem entende que o laquê usado no penteado, em contato com o material da pelota, possa interferir na rota da cabeçada desferida – mas não há provas para sustentar a acusação.

Dito isso, meu caros, Tite encontrou sua antítese: o ferrolho; Neymar, seu pesadelo: aqueles que não se abalam; o Brasil, sua ironia: o juiz.

Em tempos de infância enjaulada, honremos Manuel de Barros e joguemos como criança.

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Deus existe e bate bem de fora da área

Foi um momento para a história.

Já vi muitos gols graças a deus. Outros tantos, dedicados a ele. Mas neste sábado, foi do próprio dito cujo o segundo tento palmeirense. Um petardo, de perna esquerda. Defensável, é verdade, mas não sem méritos de seu autor.

Da ponta direita da área, corte para para o meio, batida firme na bola, que belisca a trave antes de encontrar as redes. Torcida em êxtase e ele, que até então não havia se revelado, se vira de costas para o gol e anuncia sua própria presença: “Não fui eu, foi deus.”

E deus é negro! Ele, que até então parecia um mero futebolísta que do Audax foi comprado pelo Palmeiras, deu luz ao que nem o mais fanático alviverde – ou o mais conspiratório corintiano – jamais imaginara.

Claro, que deus é brasileiro todos nós nascemos sabendo. O Papa se tornou argentino a pouco e torce para o San Lorenzo. Ambos os times estão na Libertadores e, salve-se quem puder, podem se enfrentar em fase mata-mata.

Inimaginável é o fato ter passado despercebido pela maioria dos fanáticos, pela mídia e pela comunidade científica. Os primeiros, no êxtase da comemoração, talvez não tenham percebido a prova existencial; os jornais, provavelmente encobrem o fato, enquanto a ciência ocidental, com medo, se nega acreditar.

Deus também é destro e talvez o gol de canhota tenha sido para disfarçar sua divina identidade – algo que a epifania de um gol contra o rival acabou por revelar. Não acredito, porém, que tal descuido se repita, mas não sei o efeito de um gol (a favor ou contra) em final de campeonato pode ter.

Deus não veste a 10. Inclusive, até pouco usava a 32, mas ganhou a 8 de presente e não reclamou, gostou de ter o símbolo do infinito marcado nas costas.

Agora, ei de criticar. Deus não fez o gol mais bonito do campeonato nem do jogo, este foi de Dudu, que, ingrato a seu companheiro, a ele não o dedicou. Nada que papo do vestiário não resolva, tudo certo, bola pra frente, o importante são os três pontos e manter a cabeça erguida, sempre.

O São Paulo, clube da fé, além de repensar seu epíteto, pode se dizer honrado por ter sofrido o único gol supremo até hoje registrado pela História.

Deus é brasileiro, paulistano, palmeirense, negro, destro, tem 24 anos, 175cm, 67kg, é polivalente, versátil e tem apelido: Tchê Tchê.

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